Falta de água ameaça as grandes cidades brasileiras

17 setembro 2010

Estudo do Tribunal de contas mostra gravidade do risco, mas DF tem como garantir o seu abastecimento.
A capacidade de abastecimento do Distrito Federal, cuja população cresce na ordem de 2,66% ao ano, estará esgotada por volta de 2007. Além disso, o Reservatório do Descoberto, que abastece 65% do DF, corre grande perigo devido ao aumento do número de moradores ao seu redor.

O alerta vem do Tribunal de Contas da União (TCU), que realizou uma auditoria para avaliar a atuação do Governo Federal na gestão dos recursos hídricos e a crise de abastecimento de água por que já passam localidades brasileiras apesar da abundância no País. O Brasil possui 8% de toda a água doce do mundo.

Fernando Leite, presidente da Caesb, a companhia de água e esgoto do DF, confirma os números apresentados pelo TCU, mas garante que o brasiliense não tem com que se preocupar. Antecipando a crise, o governo do Distrito Federal está investindo na construção da usina de Corumbá IV, que, segundo Leite, resolverá o problema de abastecimento do DF e Entorno pelos próximos 90 anos.

A obra deverá estar concluída entre 2004 e 2005, portanto, antes da data limite apresentada pelo TCU. Corumbá IV terá uma capacidade de produção de água de 120 mil litros por segundo, dez vezes mais do que a capacidade atual do DF, que é de, no máximo, 12 mil litros por segundo.

O problema de poluição da Reserva do Descoberto, porém, é de mais difícil solução. Isso porque a reserva está localizada em Goiás, na cidade de Águas Lindas, que cresceu desordenadamente em poucos anos. No local não há infra-estrutura de saneamento e, por isso, o risco para a reserva.

Segundo Leite, a Caesb e a empresa de saneamento e água de Goiás, têm procurado resolver a questão, mas esbarram em problemas com com a prefeitura da cidade. `Já apresentamos relatórios ao Ministério Público e ao Ibama para que sejam tomadas as providências necessárias`, diz o presidente da Caesb.

O DF, na verdade, segundo o TCU faz parte de um conjunto de seis Estados que se encontram em situação de estresse hídrico, que é a baixa disponibilidade de água para consumo humano. Pernambuco, Paraíba, Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Ceará, São Paulo e Bahia são os outros locais mais afetados.

Outros quatro estados apresentam tendência a enfrentar ocasionalmente falta d?água. E, segundo o relatório, esse quadro pode se agravar, caso a taxa de crescimento populacional se mantenha e a densidade demográfica continue aumentando, pois esses são os principais vetores relacionados a problemas de escassez aliados à gestão inadequada e aos fatores climáticos.

Poluição e desperdício, os problemas


Poluição de mananciais, déficit na coleta de esgotos, má utilização de recursos hídricos e desperdício de água. Esses são, segundo o TCU, os grandes vilões na luta pela preservação dos recursos hídricos.

Os números apresentados no relatório são reveladores. Mais de 34 milhões de brasileiros ainda não são abastecidos com água potável, o que equivale a 20% da população. Pouco mais de 60 milhões de habitantes não têm acesso à rede coletora de esgoto (35%), e apenas cerca de 20 milhões (12%) têm esgoto tratado.

Além disso, de acordo com a Agência Nacional de Águas, apenas 20% do volume de esgoto coletado no País passa por uma estação de tratamento. É importante destacar que dados da Organização Mundial de Saúde indicam que cerca de 80% das doenças são devidas à falta de saneamento.

O DF é uma das poucas exceções no Brasil. Nada menos do que 98% da população conta com abastecimento de água; 88% têm coleta de esgoto, que tem também bom índice de tratamento (66%). Segundo Fernando Leite, presidente da Caesb, até 2003, quando ficarem prontas as estações de tratamento de esgoto Melchior, em Taguatinga, e do Gama, o DF alcançará 100% neste quesito. As obras já foram licitadas e serão iniciadas em breve.

As causas identificadas pelo TCU para a crise de abastecimento são comuns aos grandes centros urbanos e, segundo o órgão, já provocam problemas de aumento de custos de captação e distribuição, bem como a diminuição da quantidade e da qualidade da água para abastecimento humano em várias regiões.

O uso irracional dos recursos hídricos indica, de acordo com o TCU, que a água não é tratada no Brasil como um bem estratégico. Os auditores concluíram que falta uma integração entre política de recursos hídricos e demais políticas públicas. O problema, indica o relatório, é que a água doce é compreendida como um recurso infinito, desprovido de valor econômico e, portanto, não é tratada como questão prioritária para o governo Federal.

O descaso se percebe até mesmo na falta de consciência da população, que utiliza a água como se ela fosse um bem inesgotável. No Lago Sul, por exemplo, o consumo diário é superior a 500 litros/dia por pessoa, sendo que a Organização Mundial de Saúde recomenda que o consumo seja de 200 litros. Bairro nobre da capital, as mansões do Lago têm, em sua maioria, piscinas e grandes jardins. Para os auditores, são necessárias, portanto, medidas de responsabilidade dos governos, da iniciativa privada e da comunidade em geral.
(Nelza Cristina).

Fonte: Jornal de Brasília (DF)

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